terça-feira, 5 de novembro de 2013

Objeto encontrado

Ao acaso
observo retratos
e saio pela cidade
catando os cacos
desses tais sentimentos
Encontro tanta lágrima junta
tanta dor adjunta
que eu penso em silêncio
com os olhos fechados
sentindo tudo isso comigo,
como é que a gente aguenta.
Ao acaso eu caminho
pés descalços sobre as pedras
e as pedras sob meus pés...
tão protegidas.
Ao acaso eu respiro
e sugiro
que o mundo devia ser diferente.
E choro quando encontro
por ali no meio do entulho
Um objeto fossilificado
era a minha
própria saudade.
Levei de volta.

Efeito dominó

e do olhar fez-se o instante
do instante fez-se o encontro
e do encontro fez-se o riso.
do riso fez-se a felicidade
da felicidade fez-se o amor.
do amor fez-se a promessa.
da promessa fez-se o para sempre...
do para sempre fez-se o dilema
do dilema fez-se a dúvida
da dúvida fez-se a sombra
da sombra fez-se a decepção
da decepção fez-se a ausência.
da ausência fez-se a saudade.
da saudade fez-se o pranto.
do pranto fez-se o pedido.
do pedido fez-se o grito.
do grito fez-se uma súplica.
da súplica fez-se o instante...
do instante novamente fez-se
o adeus...

Entre irmãs

Ela me disse que nada a completava
Nada que tinha estante
na que tinha no guarda-roupas.
Nada que pudesse comprar
nada que outras pessoas pudessem oferecer
Nada mais podia completá-la
porque ela havia perdido
a parte mais importante
que ela também não sabia qual era.
Tão carente de seus próprios sonhos
com tanto medo de realizá-los
Com tanto medo encarar o mundo.
Sem saber que o mundo não tem medo de nos encarar
Nenhum carinho que pudesse receber
Nenhuma lágrima que pudesse chorar
Nenhum homem/mulher que pudesse conhecer
Nenhum livro que pudesse estudar.
Então eu lhe perguntei:
Para que se completar?
Se o completo é o fim.
A gente é incompleto
porque somos humanos...
Se fosses completos seríamos Deuses.
E imagine a guerra que seria no Olimpo
todos nós brigando pelo lugar de Zeus.
Ela sorriu e disse
que tinha sentido minha falta.
Maninha.

domingo, 3 de novembro de 2013

Meras Vicissitudes

Da moral….
que mais adianta
ser amoral
ou imoral 
num mundo teatral?
Não sei mais definir
o que seja moral…
o que seja ética
o que seja valor
verossimilhança de desejos
ou meras
vicissitudes de amor.

Abaporu


Ah poetas. Poetas vocês perderam suas musas.
Suas musas pálidas, angelicais,
suas musas virgens.
Melhor. Vieram as Teresas,
as Marias….
As garotas de Ipanema.
Com esses saltos,
essas pernas
e essas meias que Tom Jobim não descreveu.
Coisa linda que passa…
e que levava grudado em suas curvas muitos olhares.
que Vinicius ficou tão embasbacado
que não deu conta de criar um soneto.

Vieram essas moças,
essas mulheres
essas senhoras que
não precisaram fazer lição de casa
e tantos outras que aprenderam
com o tempo possuir e despossuir o que bem entendessem
com os neologismos que criassem.
Com os gemidos que emitissem
com os gritos que sussurrassem.

Vieram essas mulheres
minha geração
mulheres pós-modernas
com os pés no chão.
Abaporu da nova civilização.
Mulher.

Essas mulheres
são a miscigenação da poesia.
São as Marias, as Joaquinas, as Gabrielas e as Teresas. Como são sexy as Teresas.
E toda mulher tem uma Teresa dentro de si.
Sem feminismo… essas mulheres não combinam com feminismos
são apenas mulheres,
às vezes doces
às vezes lascivas…

Do tipo, que é o tipo de toda mulher.

Essas mulheres não são de ninguém.
Não pertencem a ninguém…
mas quem elas quiserem serão delas.

E se cruzarem com elas
em algum ponto de seus caminhos,
saibam que não levarão nada delas,
mas deixarão com elas
boa parte de si.

Baseado num poema de Saulo Pessato que por sua vez se baseou em:
Castro Alves, Manuel Bandeira e Tom Jobim. 

Toureiro

Toureiro
não machuque o touro
não instigue sua raiva
não o chame para a arena
Não grite
nem incentive
Não mexa com o seu brio
não faça com que ele
sinta ódio
Animais são só animais...
Não vão machucar,
não vão te ferir
deliberadamente,
isso é o que nós humanos fazemos.
Toureiro cuidado.
Se ferires o touro
a tal ponto,
você terá duas opções
Ou você terá de matá-lo
ou será morto por ele.
Se não estiver preparado
é melhor que abandone Pamplona

E ele levou meus sapatos vermelhos

Ele olha para os meus pés.
Os adora, os acaricia, os massageia.
Dedo após dedo,
eu sinto sua respiração nos meus pés
ele beija. Arrebata.
E depois me calça sapatos de salto.
E me diz que foram feitos para mim.
Sapatos de salto, vermelhos.
Altíssimos.
Mal posso me equilibrar.
Diz que são puro fetiche,
e que ele não pode deixar de olhar.
Que o pé arqueado no sapato
é como um orgasmo feminino.
É lindo de se ver.
Depois os lava com água quente,
e trata meus pés como
se fosse uma parte extra,
Excessivos nos cuidados
e me diz que lhe dá extremo prazer.
Eu suspiro sem me conter.
E o toco com os pés.
E é só o estopim.
Aqueles sapatos vermelhos.
Olhando agora daqui.
Lembro porque aposentei o salto alto
É que quando acabou,
Ele levou
meus sapatos vermelhos.