quinta-feira, 6 de junho de 2013

A ladainha

Repito-me.
Não para que me entendas.
Pessoas normais não vão me entender.
Mas para que saibas que essa droga toda tá por ai.
por aqui,
por ali.
Ao teu redor.

Tem gente que chora.
Tem gente que rir.
Tem gente que vai embora.
A morte chega aqui e ali.


Repito-me.
Moço, a tristeza mata.
A realidade corta a pele.
Eu choro ouvindo os gritos silenciosos
desses seres torturados.

Repito-me.
Não quero que me entendas.
Apenas que abandone sua cegueira.
Olhe para o lado.
Pode ter alguém precisando de você....

Quem sabe, seja eu.

Notícias sobre o Poema

Saiu no tabloide
E o The New York Times publicou.
“Encontraram o Poema”.
Financial Times copiou.

El país fez manchetes.
E a Folha de São Paulo se antecipou.
Le monde colocou na internet.
“É a volta do amor”.

As notícias se espalharam,
A expectativa era muito grande
Diziam que o haviam encontrado
Lado a lado com outro fugitivo: o amor.

E haviam câmeras, notícia para todo lado.
Flash, flechas, portas abertas.
Até que alguém perguntou:
“E onde o encontraram?”

Dizem, dizem que foi na casa de um poeta.
E assim se espalhou a notícia.
Sobre o poema e o poeta.

Os acomodados que sejam chacoalhados



O homem se acomoda a seu destino
A sua triste ocupação
A sua vida vazia
A seus braços vazios
Acomoda-se é tão fácil.
É um laço que não se desfaz,
Que o tempo fortalece
Tudo se esquece,
O sonho e a percepção.

E lá já vai tarde
Passou a mocidade, e eu lembro então.
Cansaram-se dos olhos que olham, mas não se veem.
Cansam das bocas que se beijam se tocar
E se tocam sem se amar.
Acomodados aos desejos e à fuligem
À fumaça, aos espectros.

Acomodados ao destino
São seus próprios inimigos,
E nesse embate destroem a si mesmo.
Nesse embate agora
Mesmo do lado oposto da praça
Vi um destes em abate.

Acomodou-se a humanidade
Nada mais acontece
Então eu faço uma prece
Destino nos chacoalhe.

Imitação da vida

Brinco de ser vaga-lume.
Sozinho à noite me coloco
A iluminar a noite escura
Voando de cá para lá.

Brinco de ser uma formiga
De dia o árduo trabalho
E brinco de ser cigarra.
De noite intensas cantigas.

Brinco de ser trovador
E toco meu alaúde,
E dedico-te canções de amor,
De mansinho e bem amiúde.

Brinco de ser uma estrela,
Brinco de ser a lua,
Brinco de iluminar
Os vãos da tua rua.

E nessa brincadeira de ser
Eu que não era nada,
Passei a ser algo.
Uma imitação da vida.

Amava-a

Amava-a com a certeza infinita de que
não valia a pena amar e que
por mais que amasse
e desejasse.
Nada valia a pena.

limpou os óculos, observou o sol.
e na cama o lençol branco, sem sequer um amassado.
e reclamou com Deus por ter amado
A mulher que jamais o amaria de volta.

Por que haviam essas coisas?
Por que os corações não se correspondiam e pronto?
Por que laços se desfaziam?
Por que nada era eterno?

Era assim.
Amava-a com a certeza infinita de que não valia a pena amar.
Mas a esperança era um diabo de ilusão.
Que fazia-o ficar ali, a olhá-la e esperar…
Quem sabe um dia valesse a pena.

Convicção ou não.


Algum dia teremos realizado nossos sonhos.
Embotado os pesadelos,
E caminharemos livres pela relva da vida
Algum dia terei enterrado a tristeza.
-Se antes ela não me enterrar.
Algum dia…
Tenho certeza.

sábado, 1 de junho de 2013

Que existir é como um complemento do amor



Pedi, quase implorei.
Que naquela chuva torrencial

Caísse sobre mim
Algumas gotas de amor.

Porque por todo lado eu via
Pessoas encharcadas.
E eu, a única que continuava seca.
A única que não se molhava.
-Naquela chuva.

Pedi, implorei.
Aos céus.
A ponto  de me recolher ao esquecimento.
A ponto de bater às portas do arrependimento.

Eu que sempre disse não para qualquer declaração.
Agora entendia que existir era como um complemento 
Do amor.