quinta-feira, 11 de abril de 2013

E a felicidade?



Então minha mãe perguntou:
Cadê a felicidade que você saiu de casa para buscar?
Bradava aos quatro cantos do mundo.
“Eu vou buscar minha própria felicidade?”
Onde está?
Ouço-a.
Sua voz é distante.
E  o som é estridente na minha cabeça.
Será que bebi novamente?
Levanto-me.
Encaro a máquina de escrever que resgatei
Dói os dedos ao escrever.
Mas agora eu posso dizer que escrever dói.
Meu quarto é uma pocilga.
Livros e camisetas velhas com o símbolo  AC/DC.
E uns desenhos do Charles.
Vez ou outra escrevo uns livros.
Vez ou outra eu tenho dinheiro no banco.
Mãe.
A minha felicidade nunca esteve lá fora.
Ela estava aqui.
O tempo todo aqui.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A esperança





Ainda há uma árvore de pé.
E suas folhas ainda estão verdes,
E em seus galhos ainda há frutos,
E entre os frutos algumas flores.

Debaixo da árvore,
O solo ainda é bom. Surgem outras plantinhas a seu redor.
Suas raízes são fortes.
Ainda há uma árvore.

E debaixo dela ainda passa um rio.
E nesse rio, ainda há peixes.
A vida se desenvolve.
A vida não humana.

Mas mesmo quando o vento a move,
A árvore emite um triste ruído,
Mais um pedido:
“Humano não deixe que a sua extinção,
Seja a esperança para minha existência”.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Perdoados



Deve ser perdoado.
Todo aquele que sucumbe,
À tormenta negra dos pensamentos.
Brilhantes vagalumes durante o dia.
Ainda assim, súbita escuridão dos olhares.

Deve ser perdoado.
Todo aquele que chora.
Banhos quentes pela tarde,
Lâminas esterilizadas durante a noite.
E pela manhã, sorri.
 
Deve ser perdoado.
A redoma da mente é um caleidoscópio de cores.
É compreender o incompreensível.
Alcançar o inalcançável,
Perdoar o imperdoável.

Deve ser perdoado.
O vestido amassado sobre a cama.
Em retalhos depois do surto,
Como aquelas cicatrizes no braço.

Deve ser perdoado.
Quem toda noite desce ao inferno e mesmo assim volta á terra.
A vida é tão cotidiana, tão rotineira...
Que devemos realmente ser perdoados.
Por vivê-la desta maneira.

O sábio



Certa vez um sábio conheci
Perguntei-lhe da vida
E ele me respondeu:
“É curta e o amanhã pode não existir.”

Perguntei-lhe das lágrimas
E ele me disse:
“Estas limpam a alma.”

Perguntei-lhe da dor
E ele me disse:
“é uma prova pela qual temos que passar.”

Perguntei-lhe dos homens e das mulheres
E ele me disse: “Peças que se completam,
Como quebra-cabeça, cada um tem uma reentrância,
Que se encaixa no outro. Apesar de algumas vezes
Não encontrarem o encaixe perfeito!

Perguntei-lhe dos sentimentos e ele me disse:
“que não é o que nos torna racional, mas sim humanos”.

Perguntei-lhe de Deus.
E ele me disse:
“Deu-nos tudo, a vida, as lágrimas, a dor,
Os sentimentos e a completude.”

E finalmente perguntei-lhe sobre o amor
E ele me disse:
“Este não cabe nas minhas palavras
Expande-se para a poesia.
De tão abrangente que é
Não cabe na sabedoria
Derrama-se.
Só um ser pode tentar retê-lo
Em algumas palavras.

Eu perguntei: “quem é este ser?”
Ele me disse: “o poeta.”

Um universo e meio


Depois que quebrou-se.
Manteve-se assim
Em mil pedaços espalhados pelo chão.
Sem a menor condição.
De juntar-se outra vez.
Não podia colar-se.
As reentrâncias não se encaixavam mais.
As lascas faltantes deixavam espaços
Impossíveis de se preencher.
E ficou.
Quebrada.
Espalhada.
Pelo chão.
Sem a possibilidade,
Por mais remota que fosse.
De um dia juntar-se novamente.
Porque quebrou-se e não havia mais jeito.
Pois seus pedaços estavam dispersos,
Por um universo e meio.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

No catre



Brilham vagalumes numa noite nebulosa.
Cigarras cantam afinadas, líricas canções.
Dentro da sala a luz é refletida pelos cristais...
Sobre a mesa os castiçais.

Brilham também outros pirilampos,
Chamam  noturnas corujas.
Os pernilongos amaldiçoados
Sugam o sangue do sujeito,
Debruçado no catre duro e frio.
Quase inerte e vazio. Sem alma.

Correm, fogem, escapam os passarinhos.
Para seus ninhos com medo da chuva.
E eu?
Eu permaneço debaixo das gotas gélidas,
Observando o brilho dos vagalumes, pirilampos.
Ouvindo o canto das cigarras líricas
Inserida nesse cenário pitoresco
Tecendo odes às pobres almas
Dos sujeitos que se deitam
No catre.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Identidade

Tuas máscaras me irritam.
Teus personagens me frustram
Teu teatro me enlouquece
O show que sempre dás me desconcerta
Tuas máscaras e perfis distintos
Não se conciliam com o que você é...
E quem na realidade você é?
Isso será que você sabe?
Esse é um baile de máscaras
No qual você se perde,
Que engole o que você foi
E cospe quem você é: Alguém sem identidade.