segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pseudo Poeta



Eu sou de bem,
Não traio, não firo,
Não machuco,
Não minto...
Às vezes eu tomo absinto,
Mas mentir eu não minto.
Não bato, não grito,
Eu choro, não mostro,
Mas às vezes eu segredo à lua,
Minhas lágrimas prateadas.
Eu vou e volto na minha estrada,
Oscilo feito gangorra...
A indecência é segredo.
Eu tenho asco de pessoas vulgares.
Não sou um ponto final,
Já disse que a nada faço mal.
Também não sou uma vírgula,
Nem interrogação, nem exclamação.
Eu sou reticências.
E me dizem que quem de dentro de si não sai
Não conhece o amor.
Eu rebato.
Não precisei sair, o amor bateu a minha porta.
Não abri, e mesmo assim me segredou as lamúrias de seu existir.
Não precisei amar para saber o amor.
E os outros incrédulos me atiram pedras.
Moçada, eu já disse a nada faço mal.
Eu sou simplesmente pseudo poeta. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

Casa Vazia



Desculpe-me,
Eu andei desesperada,
Pela madrugada,
Sem saber de nada
Nem onde eu fui
Nem porque hoje cheguei.

Pensei ontem à noite
Ter saído de casa,
A face retalhada
Pelo demônio da dor.

Ouvi me chamarem,
Murmurarem meu nome com doçura extrema
Brilhando no horizonte
Uma luz me chamava.

Pensei caminhar até ela,
Um caminho repleto de cores,
Que me cegavam os olhos,
E deixei-me guiar pelos sentimentos.

Desculpe-me por retornar só agora,
Estou envergonhada,
Sem vestes que me cubra, sem justificativa.
Sem respaldo, sem desculpas...

Desculpe-me por retornar agora.
Os sentimentos me levaram para uma jornada,
Hoje acordei cansada,
A pele desfigurada.
Também não me reconheci.

E sem pulsação.
Toquei em meu peito, havia cicatriz.
Maldito infeliz
Sejas pela vida...
Aquele que levou meu coração
E como castigo me deixou viva.



(PS. Créditos do título ao colega Júnior Júnior...)

A quase morte da Mulher Morena




(Para melhor compreensão recomendo leitura do poema  "A volta da Mulher Morena" Vinicius de Moraes)

Minha mãe traga-me papéis sem linhas,
Canetas pretas e azuis - de preferência as azuis.
Deixe-me sozinha.
Apenas ligue a luz.

A confissão que tenho a fazer é breve.
Minha irmã saia do quarto, por favor.
Não posso confessar em tua presença.
É a confissão de um quase crime cometido em nome do amor.

Pois bem, vou começar.
É uma confissão amiúde,
Cheia de tristeza e ciúme.
E ciúme, e ciúme.

Eis que ela se anunciou na esquina,
Eu sabia ser ela. A descrição era idêntica.
Era uma menina...
Era uma mulher efêmera.

Eu sabia que eram aqueles olhos
Que ao meu poeta despertava durante a noite, como estrelas.
Eu sabia que eram aqueles lábios
Que eram o néctar da vida e ele desejava sorvê-la.

Observei-a seguir pela rua, braço estendido ao longo do corpo.
Eu sabia que eram aqueles braços lassos,
Que  paralisavam o meu poeta na prisão silenciosa
De um carinho.

Era ela a mulher morena que seguia na rua,
Que trouxe tosse má para o seu peito e solidão
Que encurvou  seus ombros,
Ela que possui o teu coração.

E quis atender teu último pedido.
Eu quis dar morte cruel à mulher morena.
Confesso, confesso, quase crime cometido.
Mas não podia Vinicius matar, assim tão cruelmente,
A musa do teu poema.

E assim me acovardei a insignificância
De um quase crime cometido e, por favor,
Perdoe-me não pude seguir com essa vingança
De matar aquela que te matou de amor.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O auto admirador


É só que Narciso
Não aceita nada diferente de seu reflexo.
Sua imagem é perfeita, o resto é alheio.
E tudo que foge de seu parâmetro é extremamente feio.

Apaixona-se por si a cada olhar.
Além disso, nada consegue enxergar.
Seu horizonte é pequeno,
Sua beleza é veneno
Para sua razão.

Narciso não tem caráter.
Mas é bonito, e parece que isso vale.
Narciso não tem inteligência.
Narciso é belo, mas não pensa.

Narciso não vê outras pessoas, nem a natureza.
Porque nem uma delas segue seu padrão de beleza.
Narciso está cego pela própria imagem e por fim
Como Narciso, há tantos outros por ai.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Agora você vem comigo



Sutil. Sutilmente vem ela e me beija os lábios,
Como um pássaro beija as flores,
Colhendo o néctar.
Assim vem ela colhendo os meus amores...

Suavemente seu toque, ultrapassa a barreira da pele.
Toca, invade minha alma.
Por um segundo leva tudo, fere...
Logo depois me esvazia e deixa-me calma.

E me preenche... E me esvazia.
E faz minhas emoções oscilarem, vira minhas páginas.
Toda Senhora do mundo rasga minha poesia...
E com os pedaços enxuga minhas lágrimas.

Ela que andou toda essa jornada comigo.
Na despedida segurou minha mão, bem forte.
E eu lhe disse: “Olá querida Morte”.
E ela me disse: “Agora você vem comigo”.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Inócua solidão





Tudo que eu toco transformo em solidão,
Preencho de vazio todos os espaços, sem espera
Deixo o céu nublado.
Faço chover na tua janela.

O tédio me consome, o tédio de viver...
E o viço se foi? Por que foi? Como foi?
Não sei explicar, não posso entender.
Venderam-me cupons de felicidade, já vencidos.

Muita coisa não enxergo além dos meus olhos,
Porque voltei para dentro de mim, primitivamente,
Tentando entender que sombras eram essas,
Que eu via em reflexos na minha alma, aparentemente.

Foram as vozes que me compreendiam demais- que não entenderam nada.
Os abraços que me sugaram a vivacidade, meus sonhos e pesadelos
A escassez e o cansaço no meu coração.
A razão embaçada.

Mas para curar minha solidão, minha nostalgia, e meu cansaço da vida
Tantas coisas me venderam: sonhos, caminhos, ilusões.
Anunciaram na minha mente o paraíso.
Comprei coisas sem sentido, até troquei diversas vezes de coração.

Para entender que este estado inócuo não é doença.
Que aqui dentro da minha alma primitiva é a balburdia sem fim.
Como eu posso conviver com o mundo ai fora,
Se não entendo nada de mim?

Abasteço tudo de solidão.
De cores mornas, mosaicos a esmo.
Para assim poder dialogar,
E quem sabe compreender a mim mesmo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A luz



Eu precisava apenas da luz do sol.
Mas disseram-me que a luz do sol não era segura.
Que logo anoiteceria e nada poderia ver.
No breu da noite escura.

Então me venderam a luz em forma de lâmpada.
Contida num objeto pequeno que iluminava todo um ambiente.
Mas do meu céu, sumiram as estrelas.
E eu já não via mais a lua.

Então todo mundo quis a luz dentro da lâmpada,
Presa, contida... ninguém mais tinha histórias para contar ao redor da fogueira.
Ninguém mais ficava rindo de bobeira...
Porque dentro de casa tinham a luz, e a noite era escura.

Que triste são essas pessoas,
Que deixaram sua essência pura
E perderam sua liberdade
Por ter medo da noite escura.