segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O auto admirador


É só que Narciso
Não aceita nada diferente de seu reflexo.
Sua imagem é perfeita, o resto é alheio.
E tudo que foge de seu parâmetro é extremamente feio.

Apaixona-se por si a cada olhar.
Além disso, nada consegue enxergar.
Seu horizonte é pequeno,
Sua beleza é veneno
Para sua razão.

Narciso não tem caráter.
Mas é bonito, e parece que isso vale.
Narciso não tem inteligência.
Narciso é belo, mas não pensa.

Narciso não vê outras pessoas, nem a natureza.
Porque nem uma delas segue seu padrão de beleza.
Narciso está cego pela própria imagem e por fim
Como Narciso, há tantos outros por ai.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Agora você vem comigo



Sutil. Sutilmente vem ela e me beija os lábios,
Como um pássaro beija as flores,
Colhendo o néctar.
Assim vem ela colhendo os meus amores...

Suavemente seu toque, ultrapassa a barreira da pele.
Toca, invade minha alma.
Por um segundo leva tudo, fere...
Logo depois me esvazia e deixa-me calma.

E me preenche... E me esvazia.
E faz minhas emoções oscilarem, vira minhas páginas.
Toda Senhora do mundo rasga minha poesia...
E com os pedaços enxuga minhas lágrimas.

Ela que andou toda essa jornada comigo.
Na despedida segurou minha mão, bem forte.
E eu lhe disse: “Olá querida Morte”.
E ela me disse: “Agora você vem comigo”.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Inócua solidão





Tudo que eu toco transformo em solidão,
Preencho de vazio todos os espaços, sem espera
Deixo o céu nublado.
Faço chover na tua janela.

O tédio me consome, o tédio de viver...
E o viço se foi? Por que foi? Como foi?
Não sei explicar, não posso entender.
Venderam-me cupons de felicidade, já vencidos.

Muita coisa não enxergo além dos meus olhos,
Porque voltei para dentro de mim, primitivamente,
Tentando entender que sombras eram essas,
Que eu via em reflexos na minha alma, aparentemente.

Foram as vozes que me compreendiam demais- que não entenderam nada.
Os abraços que me sugaram a vivacidade, meus sonhos e pesadelos
A escassez e o cansaço no meu coração.
A razão embaçada.

Mas para curar minha solidão, minha nostalgia, e meu cansaço da vida
Tantas coisas me venderam: sonhos, caminhos, ilusões.
Anunciaram na minha mente o paraíso.
Comprei coisas sem sentido, até troquei diversas vezes de coração.

Para entender que este estado inócuo não é doença.
Que aqui dentro da minha alma primitiva é a balburdia sem fim.
Como eu posso conviver com o mundo ai fora,
Se não entendo nada de mim?

Abasteço tudo de solidão.
De cores mornas, mosaicos a esmo.
Para assim poder dialogar,
E quem sabe compreender a mim mesmo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A luz



Eu precisava apenas da luz do sol.
Mas disseram-me que a luz do sol não era segura.
Que logo anoiteceria e nada poderia ver.
No breu da noite escura.

Então me venderam a luz em forma de lâmpada.
Contida num objeto pequeno que iluminava todo um ambiente.
Mas do meu céu, sumiram as estrelas.
E eu já não via mais a lua.

Então todo mundo quis a luz dentro da lâmpada,
Presa, contida... ninguém mais tinha histórias para contar ao redor da fogueira.
Ninguém mais ficava rindo de bobeira...
Porque dentro de casa tinham a luz, e a noite era escura.

Que triste são essas pessoas,
Que deixaram sua essência pura
E perderam sua liberdade
Por ter medo da noite escura. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O lixo




Desta caminhada estou farta.
Farta de cotar meu amanhã,
E descobrir que ele sempre vai estar em baixa.
Farta de desejar a liberdade,
E estar presa em mim mesma.
Farta da demagogia que carreguei, acreditei, semeei, e destruí.
Estou farta também do sorriso das gentes...
Que só amam por fora e por dentro são ocas...
Tão vazias quanto eu.
Mas eu disse a verdade.
Eu sou vazia.
Vazia de amor, de sentimentos e de tonalidades.
Estou sempre cinza.
E isso me deixou farta.
Também estou farta do lixo que amontoou em minha porta.
Eu quis varrer para fora, mas a prefeitura não deixou colocar no aterro.
Risco de contaminação.
Tentei queimar, mas as pessoas de bem em prol de ambiente disseram que eu fazia mal.
Eu fazia mal. Eu sempre fiz o mal... e ninguém quis me parar, eu sempre fiz o mal a mim mesma.
Com essas dores do amanhã que me atormentavam hoje.
Ninguém nunca quis me parar. O lixo na minha porta começou a incomodar os vizinhos.
E vieram me perguntar o que era.
Eu lhes disse: é poesia.
Poesia? Como Drummond, como Fernando Pessoa?!
Eu ri, ironicamente.
Não meus caros, é lixo. É o lixo extirpado da minha alma.
Quase cancerígeno. Contagioso.
Um deles se aproximou, querendo tocar.
Não toque! –Gritei.
Então uma menina, quase um anjo, pegou uma das folhas de papel rabiscadas, e amassadas.
“Moça isso é reciclável.”
Eu lhe sorri e estendi a mão.
Pronto, querida, você está contaminada. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A vida é pequena até para a hipocrisia


Não me tome por hipócrita,
Não me julgues uma farsa.
Eu não tenho por que falar de mim...
Eu não tenho por que dançar essa valsa...

A vida tem tantas outras coisas lindas!
Fora de mim o mundo é amor,
O mundo é paixão...
Mas aqui dentro é só horror.

Não me tomes por hipócrita
Se eu não danço a tua canção,
Se eu não me inclino para te aplaudir,
É porque não tocaste meu coração.

A vida é assim, e não me julgues hipócrita apenas.
Porque não respeitei as açucenas,
E as peguei para mim.
A vida meu caro, até para hipocrisia,
É muito pequena. 

Repetições


Isso que você ver é repetição
Repetem-se as horas, os dias,
Os nomes das pessoas.
Essa história maldita.
E essa falsa poesia.

Tudo é repetição,
Repetem-se os erros,
Repetem-se as mazelas,
Chuvas caem, causam enchentes.
Furacões causam tragédias,
Mas isto tudo já aconteceu antes.

Tudo isto já aconteceu,
O abraço prometendo tudo.
O Adeus destruindo o coração.
Tudo, tudo já aconteceu.

Então, então por quê? Diga-me.
Ainda acredito em cada vez,
Que ao som de piano,
Um desses Vinícius me dizem: - “ Eu te amo?”

Se eu sei o ciclo infinito
Se eu sei que tudo é repetido
Por que eu caio sempre nessa repetição?